Marie Claire 109-Eu, leitora

17 02 2011

Meu amor virtual era uma mentira…

A tradutora R.M.C.C., 31 anos, conheceu o “homem perfeito” em um bate-papo na internet e começou a namorar. Em sete meses, viveu “o maior amor que alguém pode sentir na vida”, até descobrir que amava um estranho: tudo que ele tinha contado era mentira

“Sou separada há três anos, fiquei casada durante sete. Tenho duas filhas, gêmeas de 6 anos. Meu ex-marido era tranqüilo até demais. Como pai, seu sossego era ótimo, porque passava calma para as meninas. Por outro lado, sua atitude diante das adversidades da vida e dos problemas do dia-a-dia era o que me incomodava profundamente. Ele era supercaseiro e eu adorava sair, por exemplo. Era engraçado: minhas amigas reclamavam porque seus maridos eram nervosos, eu me queixava porque o meu era calmo demais.

Sempre fui muito ativa, decidida e dinâmica. Sou formada em tradução e já no segundo ano de faculdade arrumei emprego numa empresa de turismo, em São Paulo, onde trabalhei por 13 anos. Eu viajava muito para o exterior e podia levar quem quisesse comigo, mas como meu ex-marido nunca estava disposto a ir, eu levava minha mãe ou um irmão. Esse tipo de apatia dele foi o que me levou a pedir a separação.

Nasci no interior de São Paulo, em uma família extremamente unida. Ninguém conseguia entender como eu estava me separando de um homem tão maravilhoso, educado, honesto, corretíssimo e calmo. Mas tinha uma mulher presa dentro de mim que queria dar vasão aos sentimentos, às emoções, às sensações. Eu queria o sonho, o romantismo, os olhos nos olhos, passear de mãos dadas. Eu queria um príncipe encantado que me fizesse declarações de amor. E encontrei.

Tudo começou com um computador que eu comprei no final de 97 e que me fez descobrir a internet. Um dia, por pura curiosidade, entrei em uma sala de bate-papo, achando tudo aquilo muito esquisito, mas divertido. Para mim era só um passatempo, não tinha a menor intenção de travar qualquer amizade mais profunda.

Conversava com gente do mundo todo, falava de livros, cinema, música. Fiz inúmeros e bons amigos, mas achava essa história de amor virtual algo extremamente fantasioso.
Até fevereiro de 98, quando conheci Lancelot (o apelido que o Roberto usava). Trocamos alguns e-mails e passamos a nos comunicar, via net, regularmente. Cadastrei ele no meu ICQ, um programa que permite ver quando conhecidos estão online e em que dá para conversar quase em tempo real.

Poucos dias depois de conhecê-lo, meu pai morreu de forma trágica e rápida. Fiquei péssima. Lancelot foi tudo para mim naquele momento. Bastava me conectar e lá estava ele, sempre atento, gentil, amigo e presente com palavras ternas e serenas para me consolar.
Ao mesmo tempo que fiquei feliz com tanta atenção e carinho, também fiquei um pouco incomodada. Por mais que achasse legal ele me dar força num momento tão difícil, parecia que tinha um pouco de excesso na preocupação dele, visto que ele só me conhecia pelo que eu escrevia. Na linguagem dos jovens, comecei a dar um ‘gelo’ nele. Eu entrava na net, via que ele estava lá e ignorava. Mas ele continuava lá. Parecia não desistir nunca.

Seis meses depois do primeiro contato, ele escreveu: ‘Já conversamos há tanto tempo, você já sabe tanto de mim e eu de você… Não seria hora de confiar mais em mim e me dar seu telefone?’. Como eu não quis dar o número, ele me passou um celular -a única referência que tive dele durante todo o tempo em que ficamos juntos.

Liguei no mesmo dia. Conversamos horas, parecia que nos conhecíamos há anos. A partir daí ele me ligava toda hora, de manhã para dar bom dia, de noite para perguntar como iam as coisas. Era tudo que uma mulher sozinha, trabalhando como louca e com duas filhas para criar poderia desejar.

Nunca nos descrevemos fisicamente um para o outro, mas depois de uns dez dias ele fez a segunda proposta: ‘Não acha que já falamos o suficiente para você poder confiar mais em mim e nos encontrarmos?’ Senti frio na barriga. Era uma emoção muito nova para mim. Respirei firme e confiei.

Aquela situação começou a mexer comigo. Me dava uma sensação gostosa saber que tinha alguém que se preocupava comigo. Depois de muitos anos, eu estava sentindo um prazer imenso de viver, de acordar, de fazer as coisas. Era um renascimento, um afago na alma.
Marcamos o encontro. Era setembro, as ruas estavam floridas, o sol claro e brilhante e eu parecia uma adolescente. Quando o vi, meu coração disparou. Foi amor à primeira vista, e ele nem é bonito. Ainda tenho saudades de tudo que senti naquele dia: do aperto no peito, da voz dele ao telefone dizendo para eu descer que ele já estava na porta do prédio, da conversa que durou quase o dia todo, do suor frio que ele percebeu nas minhas mãos, do meu coração batendo forte quando ele me deu o primeiro abraço.

Começamos a namorar, parecia um conto de fadas. A gente se dava bem em tudo. Em sete meses com ele senti tudo o que nunca senti em sete anos de casada. Nos dávamos maravilhosamente bem no sexo, recebia declarações de amor 24 horas por dia em telefonemas intermináveis, passávamos fins de semana grudados um no outro. Minhas filhas adoravam ele e passaram a chamá-lo de pai.

Ele me disse que era empresário, dono de uma fábrica, e que também era separado, com dois filhos. Às sextas, ficava na minha casa até a madrugada e, no sábado, dormia lá.
Era extremamente ciumento e romântico, eu adorava. Ele percebia os meus estados de espírito e falava exatamente o que eu precisava ouvir. Parecia que, juntos, estávamos descobrindo o mundo, a alegria de fazer planos, de sonhar com filhos, de caminharmos juntos até a velhice. A gente falava e sentia de tudo: aquela mulher presa dentro de mim tinha, enfim, se libertado completamente.

Ele sempre falava sobre sua família, que eram superunidos e que tinham uma situação financeira muito boa. Ele parecia ser muito ligado em dinheiro, tinha três supercarros. Um deles era uma Blazer executiva último modelo, que eu mesma escolhi na loja a pedido dele. Eu sempre manifestava o desejo de conhecer a família dele, mas ele sempre arrumava uma desculpa e saía pela tangente. Como eu não queria ficar no pé dele e passar a imagem de uma mulher chata e controladora, não insistia. Achava que mais cedo ou mais tarde isso acabaria acontecendo, afinal estávamos namorando e tínhamos planos de viver juntos o resto da vida.

le não deixava espaço para eu encucar com nada, nem mesmo com o fato de eu não conhecer ninguém do seu círculo de amizades. O filho dele me ligava, todo doce, dizendo que queria me conhecer. Claro que eu acreditava.

Ele supria todas as minhas carências. Bastava eu expressar uma vontade ou contar alguma coisa do tipo ‘minha amiga foi a um restaurante superlegal’, para ele fazer as reservas.
No dia da minha separação judicial, fiquei muito mal porque o juiz estipulou uma pensão irrisória. Meu ex-marido, embora não tivesse um alto salário registrado, recebia gordas comissões, andava com roupas de marca e poderia muito bem ajudar mais na educação das meninas. Liguei para Roberto, desabafei e ele mandou eu arrumar as crianças para sairmos todos à noite. Ele nos levou a um shopping e disse para escolhermos tudo que quiséssemos. Atitudes como essa sempre me emocionavam, faziam com que eu me sentisse a mulher mais protegida do mundo, mais amada e mais querida.

Ele sempre chegava em casa com comidinhas e docinhos que, segundo ele, sua mãe preparava especialmente para mim. E dava para perceber que era comida caseira. Às vezes, ele trazia uma garrafa de licor, dizendo que era o pai que me mandava. No aniversário da minha mãe ele trouxe vários presentinhos, segundo ele, enviados por toda sua família.
Era tudo muito perfeito. Ele tinha o dom da palavra e do convencimento. A forma como ele falava não deixava margem para dúvidas, principalmente, para uma pessoa bêbada de amor como eu estava. Minha família começou a desconfiar e a me dizer para abrir olhos. Falavam que não era normal eu não conhecer nem um amigo, nem um primo dele, achavam estranho. Mas eu nem ouvia.

Depois de um tempo, ele começou a achar defeitos no meu trabalho. Dizia que eu estava acomodada, que a empresa me explorava e que eu tinha potencial e capacidade para enxergar outros horizontes. Acabou me convencendo e deixei meu emprego de 13 anos. Não tive medo nem insegurança, ele estava comigo e isso bastava. Eu sabia que no fundo ele tinha ciúme dos amigos que fiz durante todos os anos de trabalho.
rrumei um novo emprego para ganhar bem mais que no anterior, mas logo fui demitida. Não dava para ser diferente. Eu parava tudo que estava fazendo para atender os telefonemas do Roberto -mais de dez por dia.

A essa altura, minha mãe e meus irmãos já estavam muito desconfiados e não queriam mais saber de me ver com ele, mas também não interferiam, apenas me alertavam. Incomodado com isso, ele me convenceu de que aquela atitude familiar era pura falta de respeito e eu me afastei da minha mãe.

Eu estava desempregada e longe da família, mas ao lado de um homem que cuidava de mim como se fosse uma princesa. Ele não pagava as minhas contas, saí do primeiro emprego com uma boa indenização. Mas sempre me levava para jantar e me dava presentes.
Às vezes eu sentia que ele era uma pessoa muito carente, embora fizesse questão de mostrar que era o lado forte da relação: eu era quem tinha problemas, eu era frágil; mas ele era bem resolvido. Talvez ele quisesse ser para mim o que não era ou não conseguia ser na sua vida de verdade.

Pouco antes de completarmos sete meses juntos, em março de 99, o véu que encobria toda essa história caiu. Roberto tinha passado a semana inteira falando do aniversário da mãe, quando eu finalmente iria conhecê-la. Na véspera da festa ele veio com uma história de que a mãe iria às pressas para a Argentina visitar uma tia de seu pai que estava doente.

Achei estranhíssima aquela mudança de rota repentina, não fiquei convencida, comecei a achar que tinha mesmo alguma coisa de esquisita nessa história.

No dia seguinte, pela primeira vez procurei o telefone da casa dele na lista telefônica – eu sabia seu sobrenome. Não foi difícil, era o único. Pedi a uma amiga que ligasse dizendo que estava recolhendo doações para os desabrigados da enchente de São Paulo. A mãe dele atendeu, foi muito gentil e disse que fazia questão de doar. Quando eu vi que ela estava em casa e não na Argentina, caiu a ficha.

Tonta como eu estava, ainda tentei arrumar desculpas para não acreditar que ele tinha mentido: talvez ele tivesse outra namorada que freqüentava sua casa e de quem não estava conseguindo se desvencillhar, por isso ficava sem jeito de me levar lá.

Eu não disse que tinha pego sua mentira, mas fui pressionando-o cada vez mais. Uns dez dias depois, minha mãe ligou dizendo que viria para São Paulo com meu irmão e que precisava muito falar comigo. Fomos almoçar e o cardápio daquele dia foi o pior da minha vida. Eles haviam investigado o Roberto e descobriram que ele era casado, a fábrica que ele dizia ser dele na verdade era do sogro, ele não morava com os pais e, pelo jeito, nem se dava bem com eles. Era tudo ao contrário do que ele me fez acreditar. Quase morri. Eu amava um personagem, uma fachada. Não sei como consegui chegar em casa.

Nesse dia ele me ligou várias vezes, como sempre, e eu fingi que estava tudo bem. Queria falar desse assunto olhando nos olhos dele. À noite ele foi em casa e aí e eu disse tudo o que minha família havia descoberto.

Ele explicou que resolveu mentir no começo sobre o casamento porque, se eu soubesse, não ia querer ficar com ele. E que por conta dessa mentira maior foram surgindo outras e mais outras, até ele se ver preso em uma teia. Disse que, embora vivesse com a mulher sob o mesmo teto, dormiam em quartos separados e só não se separavam definitivamente por causa do filho menor, que sempre ficava doente quando ele dizia que ia embora. Jurou que era o filho mais velho que ele colocava para falar sempre comigo ao telefone, mas eu descobri que era um menino de rua que dormia embaixo do toldo da padaria da esquina.
edi que ele fosse embora e nunca mais me procurasse. Minhas filhas sentiram muito sua ausência. Só disse a elas que ele tinha mentido e por isso eu não queria mais que ele freqüentasse a nossa casa.

Parece incrível, mas eu vivi todo esse tempo com essa pessoa tendo só o número do seu telefone celular. Por esse personagem eu mudei minha vida, deixei meu trabalho, expus minhas filhas ao risco, abandonei meus melhores amigos, esqueci minha própria família. Eu abri mão de tudo. Mas também senti o maior amor que alguém pode sentir na vida.
Depois dessa história e sem emprego ainda por cima, me mudei para a cidade de interior onde mora minha família. Ele, que ainda insistia em continuar comigo, entrou em parafuso, mas também não abriu mão de seu casamento e nem do dinheiro, que parecia ser muito importante para ele.

Já faz um ano que estou no interior, agora vivendo uma vida mais tranqüila e calma, sem sonhar tanto nem idealizar um homem que não existe. Sei que não conheço muitos detalhes da história dele, às vezes tenho curiosidade de saber quem realmente é essa pessoa. Mas prefiro deixar do jeito que está.

Não permiti que ninguém o desmascarasse junto à mulher. Provas dele comigo eu tenho muitas: dezenas de fotos de nós dois agarradinhos, ele com minhas filhas, com minha família e várias fitas de vídeo gravadas em momentos de festa. Não quero mexer nisso agora. Para mim, o pior é não ter o seu amor. Prefiro deixar que o tempo se encarregue de virar essa página.

Ainda sinto muita falta do que vivi com ele. Para suportar, me agarro a todas as outras coisas, principalmente ao trabalho. Fico triste em pensar que a família e os sonhos que desejamos concretizar juntos existem, mas eu não faço parte deles.

Sinto saudades dele, dos mimos que me fazia, do calor do seu corpo, da sua proteção e de seu cuidado comigo. Podem até me achar louca, mas eu viveria novamente essa história, mesmo sabendo que não teria um final feliz e que eu sentiria todas as dores que senti quando descobri a verdade.”

Depoimento a Lyna Barbosa

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2 respostas

17 09 2012
VALERIA DOS SANTOS

EU SEI BEM O QUE ESTA PESSOA VIVEU PORQUE EU PASSEI O MESMO COM ESTE ROBERTO QUE O SEU NOME VERDADEIRO É JOSÉ RENATO E PERDI 10 ANOS DA MINHA VIDA COM ELE, MAS HOJE ESTOU CURADA DO SENTIMENTO QUE EU TINHA , ELE É UMA PESSOA DOENTE QUE USA AS MESMAS ESTÓRIAS COM TODAS QUE ELE SE APROXIMA.

17 09 2012
VALERIA DOS SANTOS

ESQUECI DE RELATAR O PERÍODO EM QUE ME ENVOLVI COM A PESSOA DESTE DEPOIMENTO QUE FOI DE 1996 A 2006, ENTÃO QUANDO ELE ESTAVA COM A LEITORA ACIMA EU TB ESTAVA.

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